18 de março de 2010

Para levar a infância a sério



As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade...

Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância...

Vocês já repararam no olhar de uma criança quando interroga? A vida, a irrequieta inteligência que ela tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única – e verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração.

A criança que brinca e o poeta que faz um poema – estão ambos na mesma idade mágica!

Ah, aquela confiança que tem uma criança rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças...Deus é impróprio para adultos.

Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância.

Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou oitenta anos.

Não importa o enredo das histórias: o que vale é o êxtase de quem as escuta. Por isso é que as crianças gostam mesmo de ouvir sempre as mesmas histórias, como se fosse da primeira vez.

Só deveria haver escolas para meninos-poetas, onde cada um estudasse com todo gosto e vontade o que traz na cabeça e não o que está escrito nos manuais.

Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais a procura da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus?

Oh! Aquele meninozinho que dizia/ “Fessora, eu posso ir lá fora?”/ mas apenas ficava um momento / bebendo o vento azul.../ Agora não preciso pedir licença a ninguém.../ mesmo porque não existe paisagem lá fora:/ somente o cimento./ O vento não mais me fareja a face como um cão amigo.../ Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Que importa o asfalto, o cimento, isso tudo? As meninazinhas sempre saem da escola correndo descalças sobre a relva.

Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? - Há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...

Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meus tempos a pura alegria de viajar

Do livro "Para viver com poesia" - Mário Quintana

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