10 de novembro de 2010




E eu quero brincar de esconde-esconde
E te dar minhas roupas
E te dizer
E te dizer que eu gosto dos seus sapatos
E sentar na escada
Enquanto você toma banho
E massagear sua nuca
E beijar seus pés
E segurar sua mão
E escrever suas cartas
E carregar suas caixas
E rir da sua paranóia
E falar sobre o dia
E falar sobre o dia
E te dar fitas que você não vai ouvir
E tirar fotos suas
Enquanto você dorme
E te querer de manhã
Mas deixá-lo dormir mais um pouco
E beijar suas costas
E acariciar sua pele
E te dizer o quanto amo
Seu cabelo, seus olhos, seus lábios, sua nuca, seu peito, sua bunda, seu...
E sentar na escada
Até o seu vizinho chegar
E sentar na escada
Até você chegar
E me preocupar quando você se atrasa
E me surpreender quando adianta
E te dar girassóis
E ir a sua festa
E dançar até não agüentar mais
E sentir muito quando estou errada
E ficar feliz quando você me perdoa
E olhar suas fotos
E desejar ter te conhecido desde sempre
Sempre
E ouvir sua voz no meu ouvido
E sentir sua pele na minha pele
E ficar assustada quando você está bravo
E seu olho ficou vermelho
E o outro olho ficou azul
E te querer quando te cheiro
E te ofender quando te toco
Te abraçar quando está ansioso
E te segurar quando dói
Choramingar quando estou do seu lado
Choramingar quando não
E babar no teu peito
Me derreter quando você sorri
E não entender
Porque você acha que estou te rejeitando
Quando eu não estou te rejeitando
E me perguntar como você pode achar
Que alguma vez te rejeitaria
E me perguntar quem você é
Mas te aceitar de qualquer maneira
Mas te aceitar de qualquer maneira
E te falar
Sobre o menino da floresta encantada
Do anjo que voou através do oceano
Porque ele te amava
E escreveu poemas pra você
E me perguntar porque você não acredita em mim
E ter um sentimento
E ter um sentimento
Tão profundo
Que não consiga encontrar palavras para ele
E querer comprar um gatinho para você
Do qual você teria ciúmes
Por receber mais atenção que eu
E te segurar na cama
Quando você tem que ir
E chorar
Chorar feito criança
Quando você for embora
E te pedir em casamento
E você fala não mais uma vez, mas continuar pedindo
Porque apesar de você achar
Que não estou falando sério
Eu sempre falei sério
Sempre
Desde a primeira vez que te perguntei
E vagar pela cidade
Achando vazia sem você
E querer o que você quer
O que você quer
Você
E achar que estou me perdendo
Mas saber que estou segura com você
E te contar o que eu tenho de pior
E tentar
E tentar te dar o melhor de mim
Por você não merecer nada menos
E achar que está tudo acabado
Mas segurar mais uns dez minutos
Antes de você me expulsar da sua vida
E pensar que tudo está acabado
E me esquecer de mim
E tentar ficar mais perto de você
Porque é maravilhoso te descobrir
E fazer amor com você
Às três da manhã
E de algum modo
E de algum modo
Expressar um pouco desse devastador
Imortal
Irresistível
Incondicional
Envolvente
Acalentador
Desconcertante
Ininterrupto
Insaciável
Amor que sinto por você
E isso tem que parar
Isso tem que parar
Parar
Isso tem que parar

Texto original da peça CRAVE, de Sarah Kane

25 de agosto de 2010

Impressões

Prestes a dar, me arrisco a dizer, o maior passo da minha vida, deixo aqui algumas impressões:

O novo me excita, me encanta, traz alegrias e preocupações. Tenho um sonho bonito de abraçar o mundo, mas me distraio com as minhas memórias e com as minhas angústias que teimam em me fazer viver antecipadamente o que me espera. Me encontro em um daqueles momentos em que se acredita que tudo é fugaz e isso incomoda minha alma, porque por mais que eu tenha sede de viver tudo tão intensamente agora, me recolho nos meus pensamentos estúpidos e infantis. A vocês eu digo que estou indo pra aprender; a me conhecer, a lidar com as minhas limitações e com a saudade que já machuca meu coração.


No momento escuto Vinícius:

"Vai meu irmão, pegue esse avião
Pede perdão pela duração
Dessa temporada
Vê como é que anda
Aquela vida à tôa
E se puder me manda
Uma notícia boa..."

23 de maio de 2010

então, Charlie Brown, o que é o AMOR pra você?

21 de maio de 2010

Minha declaração de amor




Só uma declaração de amor a este rapaz que deu mais sentido à minha vida e que me faz tão feliz.

18 de maio de 2010

So much details










Muito da vida se perde na espera.
Vivemos no por enquanto.
"Eduardo Baszczyn"

30 de abril de 2010

Singularidades...



chuva. esperar pelo sol. margaridas. meditar. meditar. meditar. amar. corpo. alma respirar. um homem singular. woody whatever works allen. alice in wonderland. away we go. super antigo. carlos drummond de andrade. comida árabe. vinho do porto lisboa. não ter uma viagem marcada. significa estar parado? preparar. preparar. antecipar. desenhar. em busca do grande peixe. pessoas. clowns. bolo de chocolate. amigos amigos amigos. plantar. gostar ainda mais dos animais. caminhar. esperar pelo sol. esperar. esperar. espera.

e morrer.

8 de abril de 2010

Desassossegados



"Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.

Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.

Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam."

(Martha Medeiros)

29 de março de 2010



Valsinha
(Vinicius de Morais e Chico Buarque)

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."


(Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo")

18 de março de 2010




Victor Hugo acaba de oferecer -me (também) resposta ao questionamento que fiz dias atrás:


(...) Morrer de amor é viver dele.

Para levar a infância a sério



As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade...

Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância...

Vocês já repararam no olhar de uma criança quando interroga? A vida, a irrequieta inteligência que ela tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única – e verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração.

A criança que brinca e o poeta que faz um poema – estão ambos na mesma idade mágica!

Ah, aquela confiança que tem uma criança rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças...Deus é impróprio para adultos.

Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância.

Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou oitenta anos.

Não importa o enredo das histórias: o que vale é o êxtase de quem as escuta. Por isso é que as crianças gostam mesmo de ouvir sempre as mesmas histórias, como se fosse da primeira vez.

Só deveria haver escolas para meninos-poetas, onde cada um estudasse com todo gosto e vontade o que traz na cabeça e não o que está escrito nos manuais.

Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais a procura da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus?

Oh! Aquele meninozinho que dizia/ “Fessora, eu posso ir lá fora?”/ mas apenas ficava um momento / bebendo o vento azul.../ Agora não preciso pedir licença a ninguém.../ mesmo porque não existe paisagem lá fora:/ somente o cimento./ O vento não mais me fareja a face como um cão amigo.../ Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Que importa o asfalto, o cimento, isso tudo? As meninazinhas sempre saem da escola correndo descalças sobre a relva.

Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? - Há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...

Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meus tempos a pura alegria de viajar

Do livro "Para viver com poesia" - Mário Quintana

15 de março de 2010

O AMOR SOB LENTES


Helmut Newton, Affair, Paris 1976


Cartier Bresson


Yale Joel, 1948


Hans Mauli


Frank Horvat, Paris Couple (Quai Du Louvre) - 1955
video

Clipe legal

3 de março de 2010

Cuide de você...




Estive no MAM durante a exposição CUIDE DE VOCÊ da Sophie Calle.
Enquanto lia o e-mail de X para Sophie Calle, uma tristeza profunda tomou conta de mim. Mesmo que a dor tenha uma importância subjetiva, compartilhei dessa dor.
De certa forma, visitar a exposição é se colocar no plano do deleite, da re-significação. Vivencia-se ali uma experiência de ruptura, de frustração, transformada em percurso através da arte. A arte como manifestação do humano é verdadeiramente sublime, indescritível, intangível, arrebatadora.


"Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim."
Sophie Calle

A melhor resposta pra mim foi a da adolescente: “Ele se acha”

A Carta de Amor




A carta de amor
Sobre a mesa, está jogada displicentemente, há anos, uma carta de amor. Eu nunca havia recebido uma carta de amor. Encomendei uma a um escritor público. Oito dias depois, recebi uma linda carta de sete páginas, escrita à mão, em versos. Havia custado cem francos, e o homem dizia: "... sem fazer um só gesto, segui você por toda parte...".

by Sophie Calle, Histórias Reais

1 de março de 2010

Into the wild

[Into the Wild, de Sean Penn]



1. A felicidade só é real quando é partilhada

2. Se deixarmos a vida ser guiada pela razão, a sua plenitude é destruída







Assim
como dois corpos vestidos
num estendal

e à volta o mundo
a cidade
as janelas entreabertas
o inclinado dos telhados

e um jogo simples de azulejos
onde escrevemos cartas
no lento verso do vento


ora nos aproxima


ora nos afasta


ana c.

24 de fevereiro de 2010



e foi aí que PERCEBI que o amor não estava
somente no último soneto daquele livro esquecido
no banco do trem para Paris.

Àquele querido mês de Janeiro